Resenha: Doze anos de Escravidão, de Solomon Northup (+ filme)

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"Então passamos, algemados e em silêncio, pelas ruas de Washington, atravessando a capital de uma nação cuja teoria de governo, dizem, repousa sobre a fundação do direito inalienável de qualquer homem à vida, à LIBERDADE e à busca da felicidade!" *




    Quando falamos em escravidão o que vem à mente para a maioria das pessoas, de forma geral e rápida, são imagens de negros acorrentados acompanhados de um cenário tropical de séculos passados. Infelizmente a escravidão ainda não deixou de existir, somente mudou em alguns aspectos e continua a fazer vítimas diariamente ao redor do mundo.
    A agora conhecida como escravidão moderna ou contemporânea atinge cerca de 45,8 milhões de pessoas mundialmente, sendo que 58% dos que vivem em situação de escravidão se encontram na Índia, China, Paquistão, Bangladesh e Uzbequistão, segundo dados do Índice de Escravidão Global de 2016, feito por The Minderoo Foundation. Quanto à terminologia usada a pesquisa compreende como “escravidão moderna” as situações de exploração que uma pessoa não pode recusar ou abandonar, devido à ameaças, violência, coerção, abuso de poder ou engodo, recebendo tratamento parecido com o de um animal de fazenda. Outros termos que adentram o conceito de escravidão moderna são: tráfico humano, trabalho forçado, servidão por dívida, casamento forçado ou servil, venda ou exploração de crianças. O documento ainda apresenta definições-chave desses termos, acordadas pela maioria dos governos.


    Pode-se dizer que certos trechos do livro Doze anos de Escravidão não somente foram como ainda são reais para muitas pessoas e não apenas nas terras de Solomon Northup: há uma estimativa de 2,168,600 pessoas escravizadas nas Américas (do Sul, do Norte, Central) em 2016.        
    Tome-se como exemplo o tráfico humano. No livro de Northup podemos ter ideia de como ocorriam as compras e vendas de escravos, como pessoas eram comercializadas e tratadas como animais:

    “No dia seguinte muitos clientes vieram para examinar o ‘novo lote’ de Freeman. Ele estava muito falante, tagarelando infinitamente sobre nossas vantagens e qualidades. Freeman nos fazia erguer a cabeça de forma altiva, caminhar de um lado para o outro enquanto os clientes podiam apalpar nossas mãos, nossos braços e nosso corpo, fazer-nos virar, perguntar o que sabíamos fazer, fazer-nos abrir a boca e mostrar os dentes, exatamente do mesmo modo como um jóquei examina um cavalo que está prestes a comprar ou aceitar numa troca. Às vezes um homem ou uma mulher era levado novamente para a cabana pequena no pátio, desnudado e inspecionado de forma mais detida.” **

    De acordo com o Relatório Global de Tráfico de Pessoas de 2016, organizado pelo UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime), somente no Brasil foram reportadas cerca de 3,000 vítimas de tráfico humano por ano, devido a crimes como trabalho escravo e trabalho forçado. Analisando os resultados obtidos na América do Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela) concluiu-se que as mulheres apresentam o perfil de vítimas mais frequentemente detectado.

    Seguem outros dados relevantes:
         - Forma de exploração mais frequentemente detectada: exploração sexual, 57%
         - Perfil de gênero dos condenados: masculino 63%
         - Participação dos cidadãos nacionais entre os infratores: 77% 


    
    Você pode se perguntar: como as pessoas chegam a esse ponto? A escravidão no Brasil e no mundo corre pelas sombras, envolta em fumaça e ilusões. Assim como Solomon Northup foi enganado com a promessa de um bom emprego, muitos são igualmente ludibriados por traficantes e acabam por cair em um embuste que pode levar a anos de servidão degradante e desumana. O site 50forfreedom traz um exemplo da Zâmbia: “uma jovem mulher recebeu uma proposta de emprego como garçonete na Europa, mas, ao chegar descobriu que não havia trabalho e que seu futuro chefe era um cafetão. Ela foi violentada, espancada e forçada a trabalhar como prostituta, sem qualquer possibilidade de procurar ajuda”.
    Exploração sexual, trabalho forçado, adoção ilegal, venda de bebês e até produção de material pornográfico constam na lista de crimes cometidos contra as vítimas de tráfico humano na América do Sul (2012-2014, conforme o relatório das Nações Unidas).
    Ao realizar essa breve pesquisa sobre a escravidão atualmente foram muitas as semelhanças encontradas entre o que Solomon e outros tantos escravos sofreram no passado com o que acontece ainda hoje. Relatórios, pesquisas, documentos, notícias e vídeos podem corroborar minha afirmação. Não ouso dizer que ninguém mais sofre com açoites...
    Apesar de o Código Penal brasileiro coibir o trabalho forçado em três artigos (149, 203, 207) um grande número de pessoas aqui no Brasil continua a sofrer sob a sombra da escravidão, que extrai a humanidade de suas vítimas. Por isso diversas associações e fundações se unem para quebrar as correntes que impedem milhares de terem um vida digna e livre. Abaixo seguem vídeos interessantes sobre o assunto e ao final do post eu compartilho documentos, sites e matérias importantes para quem se interessar e desejar ajudar, de alguma forma, a apagar a escravidão do nosso presente e futuro.  





* (p.47) NORTHUP, Solomon. Doze anos de Escravidão. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.
** (p.67) NORTHUP, Solomon. Doze anos de Escravidão. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.

Fontes:





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2 comentários

  1. Obrigada por partilhares toda a tua pesquisa. Sabendo pouco sobre o assunto em causa, ajudou muito ler este resumo da situação!

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    1. Agradeço pelo teu comentário, assim posso saber se meus objetivos foram atingidos. ;)

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