La La Land: Cantando Estações (2016)

"City of stars, are you shining just for me?"

Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Título original: La La Land

    La La Land: Cantando Estações (2016) é o favorito da temporada de premiações deste ano, já contando com várias indicações e levando na bagagem ao Oscar sete estatuetas do Globo de Ouro e outros prêmios. O diretor e roteirista Damien Chazelle já é conhecido pela Academia, quando levou o seu Whiplash (2014) para o Oscar de 2015. Depois de assistir La La Land eu já levanto a bandeirinha com seu nome. Estou na torcida!

    O filme presta homenagem não somente a outros musicais e a indústria do cinema como também aos sonhadores e a todos que procuram seu lugar ao sol. É assim que o longa começa com a contagiante e empolgante canção Another Day of Sun, em que um grupo de pessoas presa no engarrafamento de LA expressa os desejos que buscam realizar na cidade dos anjos. O figurino com cores vivas e vibrantes, o êxtase das pessoas, a vividez da música e os movimentos fluidos da câmera despertam emoções quentes e começam a pintar o quadro de alegria esperançosa e da possibilidade de os seus sonhos se realizarem na terra que os fabrica. 
    Os protagonistas dessa história são Mia (Emma Stone), uma jovem aspirante a atriz que se vê rodeada de estrelas e busca diariamente a chance de se tornar uma, e Sebastian (Ryan Gosling), um pianista entusiasta com o jazz de outrora, que está perdendo força em um mundo no qual o coração das pessoas bate em outro ritmo. Conhecemos ambos num clima de I have a dream, do ABBA, seguindo seus ideais e mantendo-se fieis à suas crenças. Quando os caminhos de Mia e Sebastian se cruzam entre notas musicais, festas e danças à luz da grande cidade, os sonhos se entrelaçam em um mundo onírico e excitante. A partir daí a trama se desenvolve até um ponto confortável e esperado pelo público, para depois se desenrolar em um terreno mais realista e ao final, agridoce. 


    Stone e Gosling estão brilhantemente ligados, transmitindo com excelência as passagens da paixão juvenil até os conflitos mais sérios, os anseios e certezas dos sonhadores. Ryan esbanja proficiência no piano, sendo que dispensou dublê na hora de representar as músicas gravadas, embora tenha aprendido a tocar o instrumento em três meses. As coreografias também agradam pela leveza e talento.




    A fotografia, a trilha sonora, os jogos de câmera, a ambientação e a arte do filme estão impecáveis, ao meu ver. Assisti poucos musicais (acredito que nenhum da lista que inspirou La La Land): Into the Woods ou Caminhos da Floresta (versão da Broadway e da Disney), Mamma Mia (filme de 2008), Os Miseráveis (filme de 2012), Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (filme de 2007), etc. Lembro que assisti parte de Hairspray (filme de 2007) e não gostei nenhum pouco das letras e de como as canções eram inseridas na trama. Fiquei com medo que La La Land fosse assim, mas felizmente não foi o que ocorreu. A música faz parte do filme do mesmo modo como faz parte de nossas vidas. Mesmo quando os personagens não estão cantando ou dançando, o som de diversos instrumentos percorre o filme com naturalidade, conduzindo o espectador como se lhe desse a mão para o acompanhar numa dança. A partir de um ponto do longa as peças musicais diminuem, mas essa breve ausência tem seu significado quando observamos o que está acontecendo com Mia e Sebastian. 
    A encantadora trilha sonora ficou por conta de Justin Hurwitz (música) e a dupla de Benj Pasek com Justin Paul (letras). Já baixei o álbum e tenho certeza que a sublime coleção de sentimentos sonoros vai me acompanhar por um bom tempo. Ao final do post convido você a ouvir ao menos uma canção. 
    Lembrei de uma frase shakespeariana que li na capa de um livro didático de inglês: "All the world’s a stage, / And all the men and women merely players" (O mundo inteiro é um palco, / E todos os homens e mulheres meros atores). Quando assisti à Mia e Sebastian dançarem ao fim da tarde de frente para a cidade de Los Angeles, foi o que senti: que todos os assistiam, seja de um lado da tela ou de outro.


    Dou ao filme cinco estrelas, mas ele merece uma constelação do tamanho dos sonhos do mundo. Cativante, emocionante e inteiramente belo, La La Land é uma das minhas apostas para o Oscar, mas ainda tenho outros queridinhos para assistir. Impossível não arriscar uns passos de improviso ou um cover da música que te conquistou após ver o filme. 
     Um musical feito para essa premiação, com referências ao próprio gênero e a história do cinema, com um elenco que encontrou desafios para seus papéis, mas com treino e dedicação conseguiu entregar um ótimo trabalho. Dentre as indicações ao Oscar, La La Land se encontra nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor (Damien Chazelle), Melhor Ator (Ryan Gosling), Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Canção Original (Audition: The Fools Who Dream e City of Stars), Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino...




    

Comentário com spoiler!

    Depois de Mia e Sebastian conseguirem realizar seus sonhos e perceberem que nem tudo foi como planejado, eu lembrei do musical Into the Woods, que alerta para os desejos que realizamos, ressaltando que eles têm seu preço. 

Fontes:

Lista de indicados ao Oscar.


Não Derrame Café no Seu Livro, por João Augusto

Resenha: Doze anos de Escravidão, de Solomon Northup (+ filme)

"Então passamos, algemados e em silêncio, pelas ruas de Washington, atravessando a capital de uma nação cuja teoria de governo, dizem, repousa sobre a fundação do direito inalienável de qualquer homem à vida, à LIBERDADE e à busca da felicidade!" *




    Quando falamos em escravidão o que vem à mente para a maioria das pessoas, de forma geral e rápida, são imagens de negros acorrentados acompanhados de um cenário tropical de séculos passados. Infelizmente a escravidão ainda não deixou de existir, somente mudou em alguns aspectos e continua a fazer vítimas diariamente ao redor do mundo.
    A agora conhecida como escravidão moderna ou contemporânea atinge cerca de 45,8 milhões de pessoas mundialmente, sendo que 58% dos que vivem em situação de escravidão se encontram na Índia, China, Paquistão, Bangladesh e Uzbequistão, segundo dados do Índice de Escravidão Global de 2016, feito por The Minderoo Foundation. Quanto à terminologia usada a pesquisa compreende como “escravidão moderna” as situações de exploração que uma pessoa não pode recusar ou abandonar, devido à ameaças, violência, coerção, abuso de poder ou engodo, recebendo tratamento parecido com o de um animal de fazenda. Outros termos que adentram o conceito de escravidão moderna são: tráfico humano, trabalho forçado, servidão por dívida, casamento forçado ou servil, venda ou exploração de crianças. O documento ainda apresenta definições-chave desses termos, acordadas pela maioria dos governos.


    Pode-se dizer que certos trechos do livro Doze anos de Escravidão não somente foram como ainda são reais para muitas pessoas e não apenas nas terras de Solomon Northup: há uma estimativa de 2,168,600 pessoas escravizadas nas Américas (do Sul, do Norte, Central) em 2016.        
    Tome-se como exemplo o tráfico humano. No livro de Northup podemos ter ideia de como ocorriam as compras e vendas de escravos, como pessoas eram comercializadas e tratadas como animais:

    “No dia seguinte muitos clientes vieram para examinar o ‘novo lote’ de Freeman. Ele estava muito falante, tagarelando infinitamente sobre nossas vantagens e qualidades. Freeman nos fazia erguer a cabeça de forma altiva, caminhar de um lado para o outro enquanto os clientes podiam apalpar nossas mãos, nossos braços e nosso corpo, fazer-nos virar, perguntar o que sabíamos fazer, fazer-nos abrir a boca e mostrar os dentes, exatamente do mesmo modo como um jóquei examina um cavalo que está prestes a comprar ou aceitar numa troca. Às vezes um homem ou uma mulher era levado novamente para a cabana pequena no pátio, desnudado e inspecionado de forma mais detida.” **

    De acordo com o Relatório Global de Tráfico de Pessoas de 2016, organizado pelo UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime), somente no Brasil foram reportadas cerca de 3,000 vítimas de tráfico humano por ano, devido a crimes como trabalho escravo e trabalho forçado. Analisando os resultados obtidos na América do Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela) concluiu-se que as mulheres apresentam o perfil de vítimas mais frequentemente detectado.

    Seguem outros dados relevantes:
         - Forma de exploração mais frequentemente detectada: exploração sexual, 57%
         - Perfil de gênero dos condenados: masculino 63%
         - Participação dos cidadãos nacionais entre os infratores: 77% 


    
    Você pode se perguntar: como as pessoas chegam a esse ponto? A escravidão no Brasil e no mundo corre pelas sombras, envolta em fumaça e ilusões. Assim como Solomon Northup foi enganado com a promessa de um bom emprego, muitos são igualmente ludibriados por traficantes e acabam por cair em um embuste que pode levar a anos de servidão degradante e desumana. O site 50forfreedom traz um exemplo da Zâmbia: “uma jovem mulher recebeu uma proposta de emprego como garçonete na Europa, mas, ao chegar descobriu que não havia trabalho e que seu futuro chefe era um cafetão. Ela foi violentada, espancada e forçada a trabalhar como prostituta, sem qualquer possibilidade de procurar ajuda”.
    Exploração sexual, trabalho forçado, adoção ilegal, venda de bebês e até produção de material pornográfico constam na lista de crimes cometidos contra as vítimas de tráfico humano na América do Sul (2012-2014, conforme o relatório das Nações Unidas).
    Ao realizar essa breve pesquisa sobre a escravidão atualmente foram muitas as semelhanças encontradas entre o que Solomon e outros tantos escravos sofreram no passado com o que acontece ainda hoje. Relatórios, pesquisas, documentos, notícias e vídeos podem corroborar minha afirmação. Não ouso dizer que ninguém mais sofre com açoites...
    Apesar de o Código Penal brasileiro coibir o trabalho forçado em três artigos (149, 203, 207) um grande número de pessoas aqui no Brasil continua a sofrer sob a sombra da escravidão, que extrai a humanidade de suas vítimas. Por isso diversas associações e fundações se unem para quebrar as correntes que impedem milhares de terem um vida digna e livre. Abaixo seguem vídeos interessantes sobre o assunto e ao final do post eu compartilho documentos, sites e matérias importantes para quem se interessar e desejar ajudar, de alguma forma, a apagar a escravidão do nosso presente e futuro.  





* (p.47) NORTHUP, Solomon. Doze anos de Escravidão. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.
** (p.67) NORTHUP, Solomon. Doze anos de Escravidão. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.

Fontes:





TBR | Maratona Reading About Reality

Parece que alguém está gostando de participar de desafios e maratonas de leitura...


         Leitoras e leitores, venho por meio deste post comunicar que irei participar de mais uma maratona de leitura e convidar vocês a participarem também. Soube dessa ideia excelente por meio do blog A Mulher Que Ama Livros.
      Abaixo seguem os vídeos de apresentação da maratona pelas organizadoras Sara Cristina e Alexandra.
        




        Decidi participar da maratona porque sinto ser necessário que nos debrucemos sobre a realidade com um olhar mais aguçado, reflexivo, empático e racional. Tantas questões importantes como aborto, imigração, homofobia, corrupção, ódio, preconceito, etc., são tratadas de acordo com o senso comum e sem profundidade. Considero a maratona Reading About Reality uma ótima forma de trazer esses assuntos para discussão no blog.
       Ao fazer a seleção dos livros decidi por dar prioridade a títulos que já possuo em minha coleção. É o velho problema dos leitores consumistas: compramos mais livros do que lemos. Seguem as categorias e os livros que escolhi:


     1 - Nesta categoria encontrei uma penca de livros, mas o principal escolhido foi Doze anos de Escravidão, de Solomon Northup (trata sobre racismo). Se sobrar tempo pretendo ler também A Rainha do Cine Roma, de Alejandro Reyes e reler Uólace e João Victor, de Rosa Amanda Strausz, ambos sobre crianças de rua/desigualdade social.

    2 - Infelizmente não tenho nenhum livro que enfoque o impacto do ser humano na natureza. Gostaria muito de ler Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksievich. Se eu encontrar cinquenta temers na rua eu compro o livro e leio.

    3 - Busquei na biblioteca pública municipal o livro A Mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir, conhecida escritora, filósofa e feminista francesa. (Não escolhi O Segundo Sexo porque não tenho o livro e não consegui na biblioteca)

    4 - Talvez agora eu leia de uma vez O Lado Bom da Vida, de Matthew Quick. O protagonista da história acaba de sair de uma instituição psiquiátrica mas não sabe o motivo de ter ido lá, segundo me conta a sinopse.


         Para melhor fundamentar as futuras discussões e resenhas eu vou buscar algo sobre o tema de cada livro em obras de filosofia e sociologia. Tenho um material muito bom que obtive durante as aulas de Ética Geral e talvez possa encontrar algo de Sociologia. 
          Espero que dê tempo para os que desejam participar possam escolher seus livros. Comente se você vai entrar na maratona e quais os livros selecionados! Se tiver dúvidas, entre em contato. Prepare seu senso crítico e vamos lá!

Não Derrame Café no Seu Livro, por João Augusto

Resenha: A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin

"[...] - Por quê? Por que agora? Jon Arryn foi Mão durante catorze anos. Que andava fazendo ele para que tivessem de matá-lo?- Andava fazendo perguntas [...]."




                O criador da saga de fantasia adulta de maior prestígio da atualidade é o americano George R. R. Martin, escritor, produtor e roteirista. Foi em meados dos anos 1990 que George começou a desenvolver a série As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire) que, na época, era dividida em três livros: A Guerra dos Tronos (A Game of Thrones), A Dança dos Dragões (A Dance with Dragons) e Os Ventos do Inverno (The Winds of Winter). Porém, a história cresceu na medida em que era contada (the tale grew in the telling) e o que era para ser uma trilogia ganhou um, depois dois e mais um volume, totalizando sete livros, respectivamente:
George R. R. Martin

A Guerra dos Tronos (A Game of Thrones)
A Fúria dos Reis (A Clash of Kings)
A Tormenta de Espadas (A Storm of Swords)
O Festim dos Corvos (A Feast of Crows)
A Dança dos Dragões (A Dance with Dragons)
➸ Os Ventos de Inverno (The Winds of Winter) (ainda não publicado)
➸ Um Sonho de Primavera (A Dream of Spring) (ainda não publicado)





    Em Portugal cada livro foi divido em dois volumes e pelo que sei algumas edições britânicas também foram divididas (possivelmente pelo tamanho de alguns livros como o terceiro, que no Brasil têm 884 páginas, sendo que em edições estrangeiras o número se aproxima das mil páginas; e/ou por questões de mercado).

Edição portuguesa da saga.


Outra edição portuguesa.
Edição britânica da saga.

Edição britânica da saga.

A Guerra dos Tronos
 nos leva ao mundo de Westeros, continente governado pelo rei no Trono de Ferro, Robert Baratheon, o Primeiro de Seu Nome, Senhor dos Sete Reinos. Também conhecemos partes de alguns outros locais fora de Westeros.

    Nessa terra as estações do ano podem durar décadas ou até uma vida inteira. O inverno é temido por todos. Um período sem vida, sem esperança e repleto de perigos que se escondem nas geladas terras nortenhas. O primeiro livro se passa em um verão próximo de seu fim, e o lema da casa Stark é constantemente lembrado: o inverno está chegando. No apêndice da obra encontramos uma breve história de algumas Grandes Casas dos Sete Reinos. Parte muito importante, pois a quantidade de nomes, posições, cargos, alianças e histórias pode confundir leitores e leitoras.

    Após a morte de Jon Arryn, outrora Mão do Rei (cargo semelhante a primeiro-ministro), Robert Baratheon viaja do seu castelo no sul para as terras geladas de Winterfell, no Norte. Visita seu amigo Eddard Stark que o ajudou em batalha a conquistar o trono dos Sete Reinos e a varrer os Targaryen do poder. Contudo, há suspeitas de que Jon foi envenenado por alguém de real posição. A convite de Robert, Eddard aceita ser a nova Mão e vai com parte de sua família para o sul com a intenção de investigar a morte de seu predecessor no cargo. Assim tem início inúmeras intrigas que rebentam em traições, batalhas, fugas, apreensões e muitas mortes. Cada capítulo é sob a perspectiva de um personagem, narrado em terceira pessoa, recurso usado com mestria pelo escritor.
    Ao realizar a pesquisa para este post fiquei com receio de assistir a maioria das entrevistas de George Martin e acabei por tomar conhecimento de um spoiler simplesmente por ter pesquisado imagens de uma personagem. Por isso, cuidado: grande parte das entrevistas do autor se destina a quem já leu os cinco livros. No final do post tem um vídeo que seria ótimo para quem ainda não leu o primeiro volume SE não tivessem colocado cenas da segunda temporada da série da HBO. O sucesso estrondoso dos livros se deve, em parte, à série televisiva Game of Thrones, da HBO.
    Sabe-se que George R. R. Martin bebeu da fonte de J. R. R. Tolkien, célebre autor da trilogia O Senhor do Anéis, entre outros livros. Também serviram de inspiração as ficções históricas, episódios da história medieval, a Guerra das Rosas, etc. Em conjunto com suas vivências Martin pôde escrever uma fantasia extremamente rica em detalhes, bem trabalhada, com personagens complexos, histórias atraentes e grandiosas na forma e no estilo. 
    Já estou encantado e apaixonado por essa saga! A Maratona Gelo e Fogo continua, agora com a leitura do segundo volume: A Fúria dos Reis.


Atenção: se você ainda não leu A Guerra dos Tronos o vídeo abaixo contém spoilers!


*(p.230) MARTIN, George R. R. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010.

Fontes:


Não Derrame Café no Seu Livro, por João Augusto

Sobre a leitura de A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin

"[...] Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre. Não existe meio-termo."*



    Uma semana e quatro dias de leitura diária de A Guerra dos Tronos, primeiro volume da saga As Crônicas de Gelo e Fogo, do americano George R. R. Martin. Anoto cada avanço na leitura do volume de 591 páginas em um calendário personalizado. O rosto (ou a máscara) de Cersei Lannister me encara do mural no meu quarto. Ao lado, a frase do subtítulo desta postagem.
    O grupo de leitores e leitoras no Facebook ajuda com resumos de cada capítulo. Os post-its azuis povoam as bordas do livro. Tive que comprar mais. Também tirei algumas xérox dos mapas dos livros (enquanto não consigo um empréstimo com um Lannister para comprar o  Atlas das terras de gelo e fogo) para me guiar durante a leitura. Ainda tenho medo de assistir a algumas entrevistas de Martin, pois a internet é escura e cheia de spoilers. Já li 300 páginas e sigo agora com apreensão. Os Stark já não vivem felizes e unidos em Winterfell. A paz dos Sete Reinos está comprometida. Alianças novas e antigas estão se formando e o inverno está chegando.
    Já comentei com os participantes da maratona e agora exponho o comentário aqui: não sou capaz de amar ou odiar profunda e definitivamente as personagens, nem de rotulá-las como “do bem” e “do mal”. Se bem me lembro em uma entrevista George comenta que seus personagens são complexos como nós somos: não existe uma pessoa inteiramente boa ou inteiramente má, pendemos para os dois lados volta e meia. Personagens que deixaram um gosto amargo com suas ações nas primeiras páginas revelaram a doçura da verdade em suas palavras em capítulos posteriores. Realmente estamos a jogar o jogo dos tronos.
    Estou em uma parte crucial da história e sei que a partir desse ponto as coisas não podem melhorar. Estou ansioso para os próximos volumes. Acredito que sigo para A Fúria dos Reis ainda em janeiro. Como disse no vídeo de apresentação da Maratona Gelo e Fogo, tenho o volume em português e em inglês britânico. Gostaria de ler os dois, talvez 30 páginas de um e 30 do outro a cada dia. Espero assistir a série logo.


    Para os que estão lendo a série: que os deuses sejam bondosos para nós.
    Para os que não estão lendo a série: leiam logo, pelos sete infernos! Ou que os Outros os carreguem! 

*(p.346) MARTIN, George R. R. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010.

Não Derrame Café no Seu Livro, por João Augusto

Maratona Gelo e Fogo

"[...] Possuo um entendimento realista das minhas forças e fraquezas. A mente é minha arma. Meu irmão tem sua espada, o Rei Robert, o seu martelo de guerra, e eu tenho a mente... e uma mente necessita de livros da mesma forma que uma espada necessita de uma pedra de amolar para  se manter afiada - Tyrion deu uma palmada na capa de couro do livro. - É por isso que leio tanto, Jon Snow." *



            Com um novo ano chegam novos desafios e oportunidades. A maioria das pessoas está de férias, o sol brilha, o tempo passa e a uva também. Que tal participar de um projeto de leitura? De uma maratona de leitura intensiva? De um desafio literário?
            No vídeo abaixo eu falo um pouco sobre a Maratona Gelo e Fogo, ideia fantástica que eu peguei emprestada da Cláudia Oliveira, do blog A Mulher Que Ama Livros, que realizou a maratona em 2015. Lanço o convite mais uma vez: vamos ler juntos os livros da série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin?


            O objetivo da maratona é ler todos os livros editados das Crônicas de Gelo e Fogo atualmente (aqui no Brasil são cinco, em Portugal são dez). Inicialmente pensei em seguir a ideia da Claudia: 30 páginas por dia. Vamos aos cálculos (me corrijam se eu estiver errado, sou de humanas):
            O total de páginas das edições comuns da série no Brasil é de 3 553 p. Em Portugal são 4 752 p.
            Lendo 30 páginas por dia conseguiremos terminar a série em 118 dias, ou seja, 4 meses (120 dias) será um bom tempo. Começaremos a maratona em janeiro e finalizaremos em abril (se for preciso entrar em maio, sem problema).
            As impressões de leitura, resenhas e comentários sobre a saga aparecerão aqui no blog, no canal e/ou na fanpage com a hashtag #maratonageloefogo. Também foi criado um grupo no Facebook para compartilhar o que cada leitor e leitora participante da maratona tem a dizer sobre a leitura e afins. 
             Para quem vai participar eu peço que se manifeste nos comentários, informando se por acaso tem blog ou canal e se tem alguma sugestão para nossa maratona ou envie uma solicitação para participar do grupo no Facebook. Assim posso ter noção de quantos somos, do tamanho da expedição que irá visitar as terras de Westeros e além. 

* (p.92) MARTIN, George R. R. A Guerra dos Tronos. São Paulo: Leya, 2010.

Resenha: A Bela e a Adormecida, de Neil Gaiman, ilustrado por Chris Riddell

    "Era o reino mais próximo ao da rainha, em linha reta, como voa o corvo, mas nem os corvos voavam até lá." *



    "[...] Às vezes desmoronados no chão. Às vezes em pé. Dormem nas oficinas, apoiados em sovelas, sentados em tamboretes de ordenha. Os animais adormeceram nos campos. Os pássaros também, e nós os vimos nas árvores ou mortos e espatifados nos campos onde despencaram do céu." **

    Escrito por Neil Gaiman e ilustrado por Chris Riddell, A Bela e a Adormecida (The Sleeper and the Spindle) traz um novo olhar à conhecida (até que ponto?) história da Bela Adormecida e uma Branca de Neve pós-caixão-de-vidro. Publicado pela primeira vez na Grã-Bretanha em 2014, a fantástica obra de Gaiman e Riddell chegou ao Brasil pela Rocco Jovens Leitores (selo da Editora Rocco para o segmento juvenil e young adult), em 2015. Alguns leitores brasileiros ficaram preocupados com a edição nacional porque acreditavam que ela não seguiria o mesmo padrão das editoras estrangeiras. Felizmente, não foi o que aconteceu. 
A capa dura é revestida por uma sobrecapa (jacket) de papel quase totalmente transparente que proporciona um efeito único. O leve embaçamento produzido pela sobrecapa se assemelha a um véu de teias de aranhas que buscam cobrir a bela adormecida, como no livro. As ilustrações são em preto e branco, com toques reais de dourado cintilante. 







O responsável pelas delicadas e magníficas ilustrações é o britânico Chris Riddell, que além de ilustrador é escritor e renomado cartunista político de alguns jornais como The Observer. Riddell recebeu diversos prêmios, como o Costa Children's Book Award e o Nestlé Gold Award, com destaque para a medalha Kate Greenaway, que premia ilustrações distintas em livros para crianças, com a qual foi laureado três vezes sendo uma pelo livro A Bela e a Adormecida. Para conhecer detalhes sobre o interessante prêmio conferido pelo Chartered Institute of Library and Information Professionals clique aqui
Chris escreve e ilustra seus próprios livros. No Brasil é mais conhecido pelas obras Otolina e a gata amarela, Otolina no mar, Otolina na escola, A Garota Gotic e o Fantasma de um rato e Wyrmeweald - O Tesouro dos Pródigos.  




Chris Riddell e sua visão pesadelo de uma presidência de Trump (pós Fuseli). Fonte: The Guardian.


O também britânico Neil Gaiman (conhecido e querido por este que vos escreve) é autor de SandmanCoraline, Deuses Americanos (American Gods), Os Filhos de Anansi (Anansi Boys), A Verdade é uma Caverna nas Montanhas Negras (The Truth is a Cave in the Black Mountains), etc. Você pode conferir a minha resenha sobre o primeiro livro de Coisas Frágeis, do Neil, aqui. Gaiman já foi laureado internacionalmente com prêmios como as medalhas Carnegie e Newbery, o prêmio Hugo (quatro vezes) e o Nebula (duas vezes), entre outros.



(Parênteses para avisar que li esse ano outro livro de contos de fadas do Neil, João e Maria, e pretendo escrever uma resenha aqui em breve. Aliás, O oceano no fim do caminho está aqui em casa na minha pilha de livros para serem lidos nas férias ;)

Neil Gaiman e Chris Riddell já haviam unido seus talentos antes nas edições britânicas de O Livro do Cemitério (The Graveyard Book), Coraline e Felizmente, o leite (Fortunately, the milk). A história de A Bela e a Adormecida apareceu primeiro no livro Rags & Bones: New Twists on Timeless Tales, uma coletânea de contos clássicos recontados sob a perspectiva do século XXI, publicado em 2013 pela Little Brown.

17310066



    O senhor de Sandman comenta em vídeos que a ideia surgiu quando seus amigos pediram que ele escrevesse uma história para a antologia que viria a ser Rags & Bones, pegando uma já existente e criando uma sequência ou virada ou mudança nela. Neil comenta que Branca de Neve foi provavelmente a primeira mulher que ele amou, quando tinha três anos de idade. Ele também amava a Bela Adormecida e pensou que poderia combinar as duas histórias.


A Bela e a Adormecida inicia acompanhando três anões que estão em busca de um presente para a rainha que irá se casar em uma semana. Ao atravessarem a cadeia montanhosa que divide os dois reinos, os anões descobrem que o outro lado da cordilheira está sob uma maldição, uma praga do sono que avança mais a cada dia. Ao retornarem com a notícia para a rainha de longos cabelos negros como as asas de um corvo e linda como uma rosa carmim sobre a neve caída, ela decide adiar seu casamento, pega sua cota de malha, sua espada, mantimentos e seu cavalo e sai para ajudar o reino dos adormecidos. Quem precisa de um príncipe? Certamente a rainha de Gaiman não, como ele afirma em entrevista ao The Telegraph: "'Você não precisa de príncipes para te salvar' [...]. 'Eu não tenho muita paciência para histórias em que mulheres são salvas por homens''. Afinal, mulheres não são seres frágeis que precisam ser defendidas por homens fortes e viris, ok? 





Uma jovem radiante como a aurora e delicada como uma rosa dorme junto com seu reino, guardada por uma selva de roseiras com espinhos mortais. Acredite quando afirmo que o conto de Neil Gaiman ainda assim irá te surpreender com sonâmbulos zumbis e princesas não tão boas como você imagina. 
Quanto às ilustrações, Chris Riddell informa que Neil não lhe deu nenhuma direção visual sobre como as personagens deveriam ser, permitindo que ele habitasse os espaços visuais vazios do livro, o que considerou "absolutamente atraente". Chris gostou da lista de personagens realmente intrigantes. Os que primeiro chamaram sua atenção foram os anões e sua relação com a mineração. Riddell não queria que eles tivessem a aparência tradicional, baseada no estilo Walt Disney. Um detalhe muito interessante que o próprio ilustrador comenta em um dos vídeos abaixo é o aparato iluminador dos chapéus dos anões, que serve como um capacete com lanterna usado hoje em dia. 




Após um ano no curso de Letras mudei minha opinião sobre diversos assuntos, temas e situações. Vejo, agora, os livros ilustrados e infantojuvenis de outra forma, menos preconceituosa. Muitas pessoas acreditam que por um livro conter mais ilustrações que palavras a sua leitura é menos digna de crédito. Não concordo mais com isso. Neil Gaiman diz que nunca pensou ou acreditou que uma ilustração em um livro diminuiria o valor da obra de alguma forma e lembra que até Dickens era ilustrado. 

Eu me encantei por A Bela e a Adormecida e recomendo a leitura tanto para crianças como para adultos, ou melhor, para jovens de todas as idades, como gosto de dizer. Não contei muito da história porque o livro é curto e para ir além eu teria que revelar alguns spoilers. As ricas ilustrações são sofisticadas, com certo tom de obscuridade e com um alto nível de detalhes que fazem com que você queria ficar minutos as observando, encantado e hipnotizado pelos traços mágicos de Riddell. A prosa de Gaiman não deixa nada a desejar, somente nos dá aquilo que queríamos com um algo mais surpreendente e que não nos decepciona, apenas nos faz sorrir e sussurrar após a surpresa: "Ah, isso é coisa do Neil". Nas palavras de Chris Riddell, "parte da mágica da colaboração é quando duas imaginações se unem fazendo coisas diferentes, mas criando algo extraordinário", que é o que acontece em A Bela e a Adormecida


Todos vão ficar fascinados com o livro.

Detalhando:


Na página 15, quando os anões estão discutindo com as pessoas da estalagem, encontramos um conflito de denominação referente à quem lançou a maldição do sono:

“- Uma bruxa! – disse o bebum.
- Uma fada má – corrigiu um homem de cara gorda.
- Pelo que ouvi dizer, ela era feiticeira – interveio a garçonete.”           

Nós comumente consideramos bruxa, fada má e feiticeira como sinônimos. Porém para o povo de A Bela e a Adormecida esses nomes representam alguma diferença. Conversando com uma bibliotecária muito querida minha eu já havia me deparado com essa questão. Ela me recomendou livros teóricos que serviriam de apoio para entender o que verifiquei novamente no conto de Neil. Quando ler algo mais profundo sobre isso volto aqui e atualizo a resenha.    



Fontes e para saber mais:

Leia um trecho de A Bela e a Adormecida (em português)! 
Entrevista de Neil para o The Telegraph: Neil Gaiman sobre o significado dos contos de fadas (em inglês). 
Galeria com o melhor de Chris Riddell, do The Guardian (em inglês).
Canal do Chris Riddell no YouTube onde você encontra vídeos lindos dele criando suas ilustrações. 
Canal do Neil Gaiman no YouTube onde você encontra ele recitando alguns poemas. 
Instagram do Chris Riddell que desenha todos os dias e faz questão de compartilhar seus sketchbooks. 
Instagram e Twitter do Neil Gaiman. 
Twitter do Chris Riddell. 





The Sleeper and the Spindle: Neil Gaiman and Chris Riddell on Chris's stunning illustrations:




The Sleeper and the Spindle: Neil Gaiman and Chris Riddell on collaboration:




The Sleeper and the Spindle: Chris Riddell discusses his illustrations:



Neverwhere: Neil Gaiman and Chris Riddell on illustration:


* (p.10) GAIMAN, Neil. A Bela e a Adormecida. 1a edição. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2015.
** (p.20) GAIMAN, Neil. A Bela e a Adormecida. 1a edição. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2015.

Não Derrame Café no Seu Livro, por João Augusto
Agradecimento especial à minha gata Molly.